domingo, 13 de outubro de 2013

leituras



Os intervalos

Não coleccionamos transições - caminhadas entre um sítio e outro. Tal incapacidade, pois disso se trata, é, entre várias, uma das que mais nos menoriza. Memorizamos tranquilamente - nos nervos internos treinados para tal tarefa - um sítio e outro, um sentimento e o que surge a seguir, os amantes consecutivos, um dia e o seguinte (domingo, segunda), mas o que está entre o visível, o nomeável e o memorizável perde-se - sem textura nem ocupação mínima do espaço que permita tornar credível, aos olhos dos outros, a sua colecção. E o que não podemos mostrar não existe.

Gonçalo M. Taveres, Breves Notas sobre o medo

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

leituras

«Perdem-se os pensamentos que guardamos para nós.» (MFM)

  Lilith guarda na mão uma navalha para aparar a ideia. Uma navalha mitológica, proprietária de um corte imaterial, mas intenso; uma exactidão invisível não deixa de ser exacta.
  Não é uma eficácia louca.

  Mas a eficácia não é um objecto que possas agarrar e guardar. Se o fosse, todos os seres vivos seriam eficazes. A eficácia está alojada no tempo e não no espaço. E o que não está no espaço não se pode guardar. O que habita o tempo é intocável, e é o mais essencial. O que podes guardar não é importante; o que tem volume, altura, largura pode ser guardado.

  Os pensamentos habitam o tempo. Utilizam o tempo para existir, tal como o fruto utiliza a árvore para existir. Não há solo onde pousem os pensamentos, a não ser que consideres o cérebro uma instituição compacta, de onde as coisas não caem.
  Escrever, desenhar: são ocupações evidentes do espaço. Do espaço magro que é uma folha, mas espaço.
  Uma ideia não desenhada nem escrita não ocupa espaço, ocupa tempo. O cérebro é um espaço onde diversos fenómenos temporais ocorrem.

  Uma ideia não tem lado direito ou esquerdo. Não tem peso ou volume, forma ou cor. Uma ideia tem segundos, ou minutos, por vezes horas, ou dias inteiros, meses.
  Uma ideia não é curva nem é uma recta.

  Lilith atravessou um caixão aberto, correu de um lado ao outro do caixão aberto. Apenas dois metros de comprimento: duas sensações estranhas: correr em espaço tão curto e esse movimento intenso dentro de uma caixa feita para guardar a imobilidade. Um exercício filosófico: correr dentro de um caixão.

  De noite, Lilith era uma mulher que fazia barulho com as ideias. Incomodava os vizinhos.
  Baixa o volume das ideias, alguém lhe disse.
  Uma ideia alta, uma ideia baixa.
  O interessante na inteligência é o modo como esta agarra qualquer objecto. As coisas não têm apenas uma pega, como as chávenas de café, as coisas do mundo são pegáveis por todos os lados, em todos os tempos, e pelos mais estranhos instrumentos: desde a mão, à pinça, às diversas tenazes. Estamos a ser agarrados por todo o lado, como se fôssemos loucos ou deixássemos que os outros o fossem sobre nós.
  Queres ser louco sobre mim?
  Eis a permissão mais generosa: Lilith aceitava que cada um pousasse sobre ela a sua loucura individual.
  Podes ser louco à vontade, não contarei a ninguém.
  Só as grandes amizades permitem a loucura.
  A loucura como teste.
  Ainda não sei se és meu amigo pois ainda não fiquei louco.

Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre as ligações (Llansol, Molder e Zambrano)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

leituras

A verdade e os desenhos

  É mais verdadeiro desenhar o verdadeiro ou escrevê-lo?
  Poderá parecer ridícula a pergunta, mas o facto é que a ciência considera que é mais verdadeiro escrever o verdadeiro.
  Ou outra questão: é possível escrever aquilo que é verdadeiro sobre um fenómeno e é impossível desenhá-lo ou fotografá-lo?
  Será o bom pintor incapaz de pintar a verdade?
  Será que as letras, será que o alfabeto se encontra mais próximo da verdade - será que é mais verdadeiro que as manchas, os traços e a cor?
  [E o mais estranho de tudo isto é que há uma infinidade de línguas (uma infinidade de associações de letras para a verdade de uma coisa) enquanto se desenhares um corpo humano todos o entenderão.]
  Há algo de estranho, diremos até: há algo de místico na convicção de que a palavra descreve melhor a verdade do mundo (ou que se aproxima mais dela).

Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre  ciência


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terça-feira, 10 de setembro de 2013

leituras

"Mario'd fallen in love with the first Madam Psychosis programs because he felt like he was listening to someone sad read out loud from yellow letters she'd taken out of a shoebox on a rainy P.M., stuff about heartbreak and people you loved dying and U.S. woe, stuff that was real. It is increasingly hard to find valid art that is about stuff that is real in thus way. The older Mario gets, the more confused he gets about the fact that everyone at E.T.A. over the age of about Kent Blott find stuff that's really real uncomfortable and the get embarrassed. It´s like there's some rule that real stuff can only get mentioned if everybody rolls their eyes or laughts in a way that isn't happy."

David Foster Wallace, Infinite Jest

(Desde o início, as minhas duas personagens favoritas.)

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

notas (para um plano)

2. a necessidade de definir um tempo para as imagens, obriga a que o espaço que elas ocuparão tenha também de ser definido (não existe tempo sem espaço).

domingo, 8 de setembro de 2013

notas (para um plano)


1. há sítios a que tenho de voltar muitas vezes até os conseguir ver.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

pausa para almoço


Há coisas novas por aqui.

A transformação da fotografia em cartaz é da responsabilidade da dupla Lina&Nando.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013