segunda-feira, 4 de junho de 2012



Hoje o dia foi muita coisa, coisa a mais, provavelmente. As coisas que moem guardo-as num lista à parte, raramente vêm aqui dar e ainda bem, porque eu gosto de cá vir. Das coisas boas de hoje:
1) Os 5 (!) dípticos para a exposição estão escolhidos (convido desde já os parcos leitores deste blog a darem um salto à inauguração que será a 10 de Julho). Ficou de fora este, não sei se concordo, se não, mas confesso que me veio um sorriso aos lábios quando refutaram o argumento de que este seria mais político que os outros dípticos, não combinando, por isso, com o resto do conjunto: "Olho para o queque e vejo o Passos Coelho, a política está lá."
2) Noutro registo completamente diferente, senti-me lisboeta como há muito não me sentia, estive meia hora a discutir as marchas com a senhora da secretaria, ao que parece não pregou olho o fim-de-semana inteiro para ver os ensaios gerais e eu que voltei a não ter bairro, escolhi instintivamente apoiar a marcha do castelo (percebo agora que não podia ser outra).

p.s. continuo com os mesmo problemas técnicos ao apresentar este trabalho (lado a lado é que devia ser), dedicar-me-ei assim que possível a aprender a pôr isto direito.

domingo, 3 de junho de 2012

sábado, 2 de junho de 2012

terça-feira, 22 de maio de 2012

the big brother is always watching you


A primeira cicatriz de que me lembro é a que tenho no joelho esquerdo.  Da altura mais desportista da minha vida, era perita em dar as voltas mais rápidas ao bloco de prédios onde vivia, na bmx vermelha – a bicicleta mais cool jamais inventada. Andava, na época, preocupada em saber subir passeios  e descer a rampa mais íngreme da zona, que acabava – obviamente – numa curva de 90.º ou, para os mais nabos, directamente no muro da escola. Saber fazer aquela curva era tudo o que contava. (Admito desde já que todas as cicatrizes que fiz se reportam a esse tempo bem delimitado em que ninguém me fazia frente… depois disso deixei-me de acrobacias e dediquei-me aos livros – a ler, entenda-se.)
Mas voltando a essa primeira cicatriz, lembro-me perfeitamente do joelho esfolado, do frasco de betadine mágico e daquele que era sempre o momento determinante – a altura de arrancar a crosta. O controlo sobre o período exacto de convalescença era meu; nesse tempo não importavam as consequências – a horrível cicatriz; importava, sim, ficar impecável novamente e pronta para a próxima corrida.
Agora que os tempos são outros, através da maravilha que é a tecnologia – devíamos todos saber “the big brother is always watching you”  (ler os clássicos vai dando jeito para as pequenas surpresas da vida) – descobri que quem nos arranca as crostas – virtuais, diga-se, que nada disto é visceral, mas isso é outra conversa – são os outros.  Parva com a descoberta de que ando a ser diligentemente seguida por quem não me conhece, mas que decididamente acha que me vai conhecer por aqui (os números impressionantes de páginas visitadas e a cadência obsessiva dessas mesmas visitas é obra que merece a banda sonora do Psycho em jeito de homenagem), deixo aqui algumas notas que penso poderem ser de interesse:
1) Houve uma altura da minha vida em que uma bmx vermelha directamente entregue pelo pai natal (não, os meus pais não eram pós-modernos) era o meu maior orgulho;
2)  Também eu já me diverti a arrancar crostas à espera que ficasse tudo bem, mas rapidamente descobri que as cicatrizes notam-se sempre e são coisa pouco sexy;
3) Depois dessa época bem sadia da minha vida, mas muito pouco produtiva, dediquei-me aos livros e só posso aconselhar o mesmo caminho – uma voltinha ao bilhar grande e umas boas leituras, acredita, dá mais frutos do que se andar a perder tempo por estas paragens.

amanhã, sempre amanhã


Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

sexta-feira, 18 de maio de 2012

o texto reencontrado

do catálogo de todas as coisas que ficaram por arrumar.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

work in progress



Por enquanto é o único díptico escolhido, será exposto lá para Julho.


(informação técnica: as fotografias deveriam estar lado a lado, como num verdadeiro díptico, mas sou tecnicamente bastante naba nisto das publicações on-line. Perante a pergunta: Porquê? Fica a resposta: são duas fotografias que se complementam; de um lado um objecto, do outro um texto; a segunda não serve de legenda à primeira. Expô-las lado a lado é garantir-lhes a mesma dignidade fotográfica.)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

da classificação



há na repetição algo de reconfortante. despidas do seu sentido original - porque repetidas até à exaustão - até as pequenas humilhações, que sempre me pareceram as mais infames, se tornam suportáveis.
(a outra hipótese é estar a perder a batalha. também pode ser isso. eu que nunca ganhei nada.)
sem surpresa, sorri generosamente a cada condescendência. engoli, sem me engasgar, a frase da praxe. também sou isto.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

em abril chovem coisas boas

Depois de ter sido publicada uma pequena fotogaleria minha no rascunho eis que a dupla lina & nando me menciona no "oh! isto é tão contemporâneo".

quarta-feira, 21 de março de 2012

rotina

volto a ter como passagem obrigatória a descida até à estação dos anjos. descida ao anjos. outro nome para o purgatório. desvio o olhar das putas da esquina. olho para o outro lado, mas não há maneira de não descer. e a descida é passagem solitária. é carruagem definida, que não descarrila. desde o que voltei a descer ao limbo apenas uma vez me foi negada entrada. suicídio. nestes casos o portão fecha-se e a estação fica consigo mesma, a tratar dos seus mortos. dos mortos que incomodam os vivos. que lhes negam os seu purgatório diário.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

Leituras passadas

"Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher - mesmo em termos não sexuais - estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era 12 anos mais nova do que eu. Acredito que também ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi..."

Charles Bukowski, Mulheres

(Gostei mesmo deste primeiro parágrafo, depois aborreci-me, a longa e rotineira lista de mulheres parecia nunca mais acabar. cheguei ao final do livro a pensar que já não tenho idade para este peditório.)