sábado, 2 de junho de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
the big brother is always watching you
A
primeira cicatriz de que me lembro é a que tenho no joelho esquerdo. Da altura mais desportista da minha vida, era
perita em dar as voltas mais rápidas ao bloco de prédios onde vivia, na bmx
vermelha – a bicicleta mais cool jamais inventada. Andava, na época, preocupada
em saber subir passeios e descer a
rampa mais íngreme da zona, que acabava – obviamente – numa curva de 90.º ou,
para os mais nabos, directamente no muro da escola. Saber fazer aquela curva
era tudo o que contava. (Admito desde já que todas as cicatrizes que fiz se
reportam a esse tempo bem delimitado em que ninguém me fazia frente… depois disso
deixei-me de acrobacias e dediquei-me aos livros – a ler, entenda-se.)
Mas
voltando a essa primeira cicatriz, lembro-me perfeitamente do joelho esfolado,
do frasco de betadine mágico e daquele que era sempre o momento determinante –
a altura de arrancar a crosta. O controlo sobre o período exacto de
convalescença era meu; nesse tempo não importavam as consequências – a horrível
cicatriz; importava, sim, ficar impecável novamente e pronta para a próxima
corrida.
Agora
que os tempos são outros, através da maravilha que é a tecnologia – devíamos todos
saber “the big brother is always watching
you” (ler os clássicos vai dando
jeito para as pequenas surpresas da vida) – descobri que quem nos arranca as crostas –
virtuais, diga-se, que nada disto é visceral, mas isso é outra conversa – são os
outros. Parva com a descoberta de que ando a
ser diligentemente seguida por quem não me conhece, mas que decididamente acha
que me vai conhecer por aqui (os números impressionantes de páginas visitadas e
a cadência obsessiva dessas mesmas visitas é obra que merece a banda sonora do Psycho em jeito de homenagem), deixo aqui algumas notas que penso poderem ser de
interesse:
1) Houve uma altura da minha vida
em que uma bmx vermelha directamente entregue pelo pai natal (não, os meus pais
não eram pós-modernos) era o meu maior orgulho;
2) Também eu já me diverti a
arrancar crostas à espera que ficasse tudo bem, mas rapidamente descobri que as
cicatrizes notam-se sempre e são coisa pouco sexy;
3) Depois dessa época bem sadia da
minha vida, mas muito pouco produtiva, dediquei-me aos livros e só posso
aconselhar o mesmo caminho – uma voltinha ao bilhar grande e umas boas
leituras, acredita, dá mais frutos do que se andar a perder tempo por estas
paragens.
amanhã, sempre amanhã
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
sexta-feira, 18 de maio de 2012
quinta-feira, 17 de maio de 2012
work in progress
Por enquanto é o único díptico escolhido, será exposto lá para Julho.
(informação técnica: as fotografias deveriam estar lado a lado, como num verdadeiro díptico, mas sou tecnicamente bastante naba nisto das publicações on-line. Perante a pergunta: Porquê? Fica a resposta: são duas fotografias que se complementam; de um lado um objecto, do outro um texto; a segunda não serve de legenda à primeira. Expô-las lado a lado é garantir-lhes a mesma dignidade fotográfica.)
segunda-feira, 14 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
há na
repetição algo de reconfortante. despidas do seu sentido original - porque
repetidas até à exaustão - até as pequenas humilhações, que sempre me pareceram
as mais infames, se tornam suportáveis.
(a
outra hipótese é estar a perder a batalha. também pode ser isso. eu que nunca
ganhei nada.)
sem
surpresa, sorri generosamente a cada condescendência. engoli, sem me engasgar,
a frase da praxe. também sou isto.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
em abril chovem coisas boas
Depois de ter sido publicada uma pequena fotogaleria minha no rascunho eis que a dupla lina & nando me menciona no "oh! isto é tão contemporâneo".
segunda-feira, 2 de abril de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
rotina
volto a ter como passagem obrigatória a descida até à estação dos anjos. descida ao anjos. outro nome para o purgatório. desvio o olhar das putas da esquina. olho para o outro lado, mas não há maneira de não descer. e a descida é passagem solitária. é carruagem definida, que não descarrila. desde o que voltei a descer ao limbo apenas uma vez me foi negada entrada. suicídio. nestes casos o portão fecha-se e a estação fica consigo mesma, a tratar dos seus mortos. dos mortos que incomodam os vivos. que lhes negam os seu purgatório diário.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
domingo, 15 de janeiro de 2012
Leituras passadas
"Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher - mesmo em termos não sexuais - estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era 12 anos mais nova do que eu. Acredito que também ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi..."
Charles Bukowski, Mulheres
(Gostei mesmo deste primeiro parágrafo, depois aborreci-me, a longa e rotineira lista de mulheres parecia nunca mais acabar. cheguei ao final do livro a pensar que já não tenho idade para este peditório.)
sábado, 14 de janeiro de 2012
Leituras passadas
O Reino
"O que mais assustava Klaus era esse modo infalível de cópia. O facto de uma arma conseguir, nas mesmas condições, repetir exactamente o mesmo som com duas balas diferentes. Era essa a possibilidade que o assustava e o fazia temer essa terceira linguagem, mais do que as outras. Porque a possibilidade de cópia exacta, de repetição perfeita, era uma suspensão evidente do tempo habitual, do tempo que os humanos e a natureza conhecem: o tempo que avança, que muda, que altera as coisas."
Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump
" Era evidente naquele momento que a memória estava intimamente ligada ao espaço. A memória era uma qualidade do espaço, não dos homens. Qualidade simples como são o comprimento, a largura e a altura. A memória é a quarta qualidade imediata do espaço, disse Walser para si próprio, como se estivesse a descobrir algo relevante."
Gonçalo M. Tavares, A máquina de Joseph Walser
"Levantou-se. Mylia era uma mulher magra, mas forte. Não utilizava os dedos para ninharias. (Muitas vezes repetia a frase: não utilizar os dedos para ninharias.)
Concentrava-se; sabia que tinha poucos anos de vida; a doença veio: ficamos juntas uns anos, depois ela permanece e eu parto. Pois bem, havia de concentrar a energia que existe nos dias ou que existe num corpo e se dirige aos dias, concentrá-la - à energia - como a um rolo de carne, estar pronta para agir. Dispensando ninharias. Os dedos devem tocar só no que é espesso, no que é fundamental; o urgente tem de coincidir com o essencial, com o que altera de alto a baixo. "
Gonçalo M. Tavares, Jerusalém
"Suspender era o verbo por excelência do poder, do rei que pode colocar o polegar para baixo determinando a execução de um prisioneiro, mas que no último momento decide suspender o gesto. Não se arrepende, vai apenas pensar. É o ainda não, ou, o mais terrível: por enquanto não.
Este por enquanto não, e disso Lenz tinha plena consciência, tinha claramente um alcance maior do que a mera execução definitiva; poderia manter uma cidade inteira debaixo do seu domínio."
Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica
(re)começo
2012 começa devagar, muito devagar... a "eu" das 9h às 18h00 acaba com a outra "eu", coisinha de nada. O ano começou desencontrado e eu guardo, como se perder isso significasse perder-me a mim, todas as coisas que queria dizer e dar às pessoas que não fui capaz de ver. Tenho muitas coisas para dizer à j. e a v., mas parece que as palavras ganham cola e, frustrada, remeto-me ao silêncio. Para o f. e a n. guardei outra coisa sem ser palavras, guardei imagem, porque entre tantas coisas que descobri no final de 2011, foram as palavras de f. primeiro escritas e depois faladas e a ternura de n. das coisas que mais me emocionaram. Porque o final de 2011 me parece agora tão mais fácil do que este ano que já começou, atraso a entrada, pego na pilha de livros das leituras passadas e ao procurar as frases que me fizeram parar em 2011, deixo para amanhã o ano novo.
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