quinta-feira, 25 de agosto de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius
Debo a la conjunción de un espejo y de una enciclopedia el descubrimiento de Uqbar. El espejo inquietaba el fondo de un corredor en una quinta de la calle Gaona, en Ramos Mejía; la enciclopedia falazmente se llama The Anglo-American Cyclopaedía (New York, 1917) y es una reimpresión literal, pero también morosa, de la Encyclopaedia Britannica de 1902. El hecho se produjo hará unos cinco años. Bioy Casares había cenado conmigo esa noche y nos demoró una vasta polémica sobre la ejecución de una novela en primera persona, cuyo narrador omitiera o desfigurara los hechos e incurriera en diversas contradicciones, que permitieran a unos pocos lectores -a muy pocos lectores- la adivinación de una realidad atroz o banal. Desde el fondo remoto del corredor, el espejo nos acechaba. Descubrimos (en la alta noche ese descubrimiento es inevitable) que los espejos tienen algo monstruoso. Entonces Bioy Casares recordó que uno de los heresiarcas de Uqbar había declarado que los espejos y la cópula son abominables, porque multiplican el número de los hombres. Le pregunté el origen de esa memorable sentencia y me contestó que The Anglo-American Cyclopaedia la registraba, en su artículo sobre Uqbar. La quinta (que habíamos alquilado amueblada) poseía un ejemplar de esa obra. En las últimas páginas del volumen XLVI dimos con un artículo sobre Upsala; en las primeras del XLVII, con uno sobre Ural-Altaic Languages, pero ni una palabra sobre Uqbar. Bioy, un poco azorado, interrogó los tomos del índice. Agotó en vano todas las lecciones imaginables: Ukbar, Ucbar, Ookbar, Oukbahr... Antes de irse, me dijo que era una región del Irak o del Asia Menor. Confieso que asentí con alguna incomodidad. Conjeturé que ese país indocumentado y ese heresiarca anónimo eran una ficción improvisada por la modestia de Bioy para justificar una frase. El examen estéril de uno de los atlas de Justus Perthes fortaleció mi duda.
ou se há autor quem me deu cabo da cabeça foi Borges.
(lembro-me como se fosse ontem, do natal de 1998. recebi as "ficções" e passei os restantes meses a tentar apanhar tudo o que pudesse de Borges. a teorema ainda não tinha lançado as obras completas, eu passava muito pouco tempo na net e isso explica, em parte, o meu ingénuo desconhecimento da fama de Borges. durante aqueles meses, encetei uma busca incessante pelas livrarias e alfarrabistas lisboetas. acabei presa às edições espanholas da livraria alcalá - se a memória não me falha, uma livraria bem ao estilo borgesiano -, nessa altura tinha dado um dedo para perceber castelhano.)
terça-feira, 23 de agosto de 2011
leituras
- O que há de errado com o trabalho? - perguntou Patty, ouvindo o eco de uma pergunta semelhante que Walter lhe fizera em tempos. - É bom para a nossa auto-estima trabalhar.
- Eu posso trabalhar - disse Verónica. - Estou a a trabalhar agora. Só que preferia não o fazer. É entediante, e tratam-me como uma secretária.
- Tu és uma secretária. Provavelmente és a secretária com o QI mais alto de toda a cidade de Nova Iorque.
- É só que estou ansiosa por me despedir, apenas isso.
- Tenho a certeza de que a Joyce te pagava para voltares a estudar, e conseguires assim arranjar um emprego mais próprio do teu talento.
Verónica riu-se.
- Os meus talentos não parecem ser do género daqueles em que o mundo está interessado. Por isso é melhor que eu os exerça sozinha. Na verdade, só quero ficar sozinha, Patty. Neste momento é tudo o que peço. Que me deixem em paz.
Jonathan Franzen, Liberdade
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
work(s) in progress I
poesia lida é mais que poesia escrita. eu vejo, mas ainda não consigo fotografar. lentamente, muito lentamente, é-me descrito o que ali está. o que vejo, o que oiço, mas que ainda não consigo explicar.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
sábado, 13 de agosto de 2011
repetição
Tento encontrar na repetição a identidade do que vejo. Quantas vezes fazem uma rotina? A rotina é feita do que já não é possível contabilizar. No imensurável descubro o que sobra das imagens. Debaixo do ruído estão os lugares que me escapam.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
A distância entre aquilo que representamos e o que somos na imagem fixa prende-se, essencialmente, com a vontade de ver para além de. O reflexo, continuamente ambíguo, tanto pelo movimento que é capaz de reproduzir, como pelo diálogo interior que permite manter, sempre me pareceu mais fiel do que a imagem captada. No instante cristalizado vejo-me, mas não me reconheço. A frustração de estar ali fielmente representada sem ser eu, lembra-me sempre a história que ela acabou por me contar sem saber muito bem porquê: tinha um alter-ego. Tinha outro nome, escolhia vestidos muito femininos, mudava o cabelo, fumava de forma afectada (usava boquilha?) e gastava dinheiro - ela uma rapariga de gostos simples, sem grandes manias, com um alter-ego daqueles. Dizia, com tanta franqueza que nunca cheguei a duvidar da história, que havia dias que era outra e nada fazia contra isso, assumia-o através de conjunto de rituais que nada tinham a ver com ela e passeava-se pela cidade.
O auto-retrato surge invariavelmente falhado, a sensação de estar a fotografar o meu doppelgänger entranha-se.
domingo, 7 de agosto de 2011
leituras
Mais uma coisa: ela era, como Mimi, uma teórica do amor. O que as diferenciava era que Mimi estava de facto disposta a fazer tudo sozinha caso os outros não fizessem a parte deles. Talvez Mimi nem sequer precisasse dos outros, a não ser como testemunhas ou cúmplices. Thea não chegava tão longe. Já tinha ouvido diversos homens, principalmente Einhorn, falarem do fanatismo das mulheres pelo amor, de como para elas a vida inteira girava ao redor dessa única coisa, ao passo que os homens estabeleciam ligações vitais com várias outras coisas e eram. portanto, menos propensos à monomania. Podia sempre contar-se com Einhorn para nos revelar parte da verdade.
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March
sábado, 6 de agosto de 2011
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
leituras
457. O lado técnico da fotografia ainda impressiona. A máquina utilizada, o formato do negativo, o número de megabites, a impressão gigante ou, em contraponto, minúscula.
458. Ninguém pergunta ao pintor o tamanho do pincel, ao escritor o peso do documento, ao cineastra o nome do laboratório da película.
[...]
467. A fotografia parece-me mais próxima da da escrita do que da pintura ou da escultura. Aliás, o seu nome indica, desde logo, essa relação. Embora alguma fotografia me pareça mais próxima de alguma pintura ou de alguma escultura.
[...]
471. Uma fotografia de um copo de água não é apenas uma fotografia de um copo de água, nem sequer uma representação de um copo de água. Assim como uma palavra não é apenas o seu significado imediato.
Setembro, Algumas notas de Daniel Blaufuks
leituras II
Yossarian left money in the old woman's lap - it was odd how many wrongs leaving money seemed to do right - and strode out of the apartment, cursing Catch-22 vehemently as he descended the stairs, even though he knew there was no such thing. Cath-22 did not exist, he was positive of that, but it made no difference. What did matter was that everyone thought it existed, and that was much worse, for there was no object or text to ridicule or refute, to accuse, criticize, attack, amend, hate, revile, spit at, rip to shreds, trample upon or burn up.
Joseph Heller, Catch-22
leituras
"Justice?" The colonel was astounded. "What is justice?"
"Justice, sir --"
"That's not what justice is," the colonel jeered, and began pounding the table again with his big fat hand. "That's what Karl Marx is. I'll tell you what justice is. Justice is a knee in the gut from the floor on a the chin at night sneaky with a knife brought up down on the magazine of a battleship sandbagged underhanded in the dark without a word of warning. Garroting. That's what justice is when we've got to be tough enough and rough enough to fight Billy Petrolle. From the hip. Get it?"
"Nor, sir."
"Don't sir me!"
"Yes, sir."
"And say 'sir' when you don't," order Major Metcalf.
Clevinger was guilty, of course, or he would not had been accused, and since the only way to prove it was to find him guilty, it was their patriotic duty to do so.
Joseph Heller, Catch-22
terça-feira, 19 de julho de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
irritação
f. é qualquer coisa como rapariga. é independente. moderna. só precisa de ser acompanhada até ao carro a partir das oito da noite. gosta de cinema italiano e de ler os clássicos. a vida é breve, é leve e pode passar o dia a dançar. durante a semana, às vezes, dá-lhe para a melancolia, chora muito pela situação do país ou pela nova catástrofe humanitária da temporada. é uma rapariga sensível aos problemas mundiais e aos saldos da zara. tem o m. que a ouve. lhe oferece prendas. lhe paga os jantares. lhe dá boleia. o m. é aborrecido e chato. não lhe dá espaço. mas f. não recusa os presentes. nem os jantares. nem as boleias. f. é maravilhosa, bonita e interessante e merece tudo o que m. lhe tem para dar. o verdadeiro problema é que f. precisa de um artista. alguém com a mesma sensibilidade que ela, sem ser chato. precisa de alguém interessante que a faça suspirar reverencialmente. além disso, f., apesar de saber que é maravilhosa, também tem ataques de pânico e dúvidas existenciais, porque mesmo com toda a sua independência e modernidade, não é menos que as heroínas das séries de tv, f. também precisa de muito conforto, de um ombro masculino que a ampare nos momentos de maior angústia. f. sabe que rapariga que se preze tem de ter o seu príncipe encantado.
f. causa-me vergonha alheia. desconforto. f. faz-me suspirar pelas sufragistas inglesas e outras que tais. f. dá-me vontade de apedrejar raparigas tontas em praça pública.
(devia ter nascido para ermita ou como certos contactos no facebook me põem de bom humor.)
quinta-feira, 7 de julho de 2011
inspiração: Erica Baum
"Fragments of an index," Baum writes (in a statement dated April 2000), "reveal the unexpected fictions, rhythms and poetry hidden with a book's internal system of reference... A tension is created between what is absent, the book, and what is present, the concatenation of sounds and meanings wrenched from their source.... When the index selections are xeroxed and enlarged other bits of visual information turn up haphazardly. The woven texture of a clothbound book and its pages, dots on the flatbed, and other pictorial noise are reworked into the final image which is then scanned in a computer and processed to create these digitally exposed white and dark dark blue C prints." (tirado daqui)
domingo, 3 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
amanhã
Lançamento do livro "Nem Sempre a Lápis", de Jorge Fallorca: Bar Bartleby (R. Imprensa Nacional, 116b, cave do restaurante BS, Lisboa), sábado, dia 2 de Julho, pelas 22h. Ilustrações de Luis Manuel Gaspar. Apresentação por Golgona Anghel.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
terça-feira, 28 de junho de 2011
destes dias
Um carro, três + um, as estradas da ilha e a vontade de experimentar cada prato que nos aparecia à frente. a b. e o m. incansáveis na sua vontade de nos mostrar tudo o que a madeira tem de melhor, a a. pronta para tudo o que nos propunham. eu deliciada, simplesmente deliciada, com o bolo do caco com manteiga de alho, com o espada preta, com o maracujá, a poncha e a espetada, com as estradas à beira do precipício, com as praias feitas de seixos, com o lado norte da ilha. custou-me o mar de todos os lados, o excessivo laranja, as disparidades entre a parte turística da ilha e o resto. fui apanhada de surpresa pela serra, pela melancolia que também existe por aqui. não vi tudo porque quero voltar.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
sexta-feira, 17 de junho de 2011
mais do mesmo
Nesta história de exames copiados ou conhecidos de antemão, depois do choque inicial vem uma certeza: temos o que merecemos. Passo a explicar, metade dos comentários que li à dita notícia são qualquer coisa deste género "antigamente é que era bom, copiava-se, mas quem era apanhado a copiar apanhava zero.".
Não é que discorde da parte final da frase, de facto, receber dez valores por fraude é premiar, ter direito a repetir o exame é premiar, mas a geração que se indigna nestes comentários esquece-se que também é a geração que vigia estes testes, que decide sobre este assunto. A geração que tão rapidamente cai num saudosismo exagerado é a geração que de facto tem o poder para decidir se estes senhores virão um dia a ser magistrados.
O mesmo vale nas universidades, temos os alunos que merecemos, temos os licenciados que merecemos. Muito se fala da geração rasca (novamente na moda depois da geração à rasca), pouco se fala da geração que permite que pessoas sem o mínimo de competências conclua o ensino superior.
E sobre este assunto deixo apenas mais um desabafo, não podia estar mais em desacordo com o actual Bastonário da Ordem dos Advogados, que defende que se deve entrar na profissão com mais de 35 anos, que se deve ir buscar magistrados à advocacia. Honestamente, não é falta de experiência de vida que falta a quem julga, é, essencialmente, bom-senso, ética e rigor profissional. Podia falar de como se perdem os melhores alunos que saem das faculdades por entraves do género que o Sr. Bastonário defende, podia falar de como os advogados se especializam cada vez mais em áreas que nada têm que ver com a magistratura, podia dizer que aos 35 anos só em busca de melhores condições materiais (e raramente por vocação) se muda de profissão, podia, mas segundo o Sr. Bastonário não tenho idade para tais considerações, falta-me experiência de vida.
terça-feira, 14 de junho de 2011
leituras II
(ou como deste livro me ficaram, essencialmente, as descrições do tempo)
Pareceu que o ia beijar, mas não, que ideia, um pouco de respeito, por favor, ainda não nos esquecemos que há um tempo para cada coisa. Tomou-lhe a mão esquerda e, devagar, muito devagar, para dar tempo a que o tempo chegasse, enfiou-lhe a aliança no dedo. Tertuliano Máximo Afonso puxou-a levemente para si e ficaram assim, quase abraçados, quase juntos, à beira do tempo.
José Saramago, O Homem Duplicado
leituras
Cada segundo que passa é como uma porta que se abre para deixar entrar o que ainda não sucedeu, isso a que damos o nome de futuro, porém, desafiando a contradição com o que acabou de ser dito, talvez a ideia correcta seja a de que o futuro é somente um imenso vazio, a de que o futuro não é mais do que o tempo de que o eterno presente se alimenta. Se o futuro está vazio, pensou Tertuliano Máximo Afonso, então não existe nada a que possa chamar domingo, a sua eventual existência depende da minha existência, se eu neste momento morresse, uma parte do futuro ou dos futuros possíveis ficaria para sempre cancelada.
José Saramago, O Homem Duplicado
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Welcome to Pyongyang
by Charlie Crane
How do you photograph one of the most secretive countries in the world?
For Charlie Crane the answer was simple, photograph what they want you to see. If there is no possibility of getting underneath the surface then the answer was to photograph the surface itself. This series is taken from a larger body of work in Pyongyang, the capital city of North Korea.
Although not commonly thought of as a holiday destination all these photographs have been taken at tourist sites throughout the city.
It took over a year for Charlie to get permission to go in with his camera: he was not allowed to take his mobile phone past customs and was met by two guides who were to accompany him at all times throughout his trip. At first they appeared robotic in conversation as if reading from a script, telling of their countrys great achievements. After a few days and many polaroids the guides became more relaxed and personable.
Working with such tight restrictions in a country once described as a Stalinist Disneyland was a real challenge but the result is the strongest body of work that Charlie has produced to date.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
durante o dia estou rodeada pelos que escolheram este rumo, pelos que suspiram "finalmente", à noite cruzo-me com os que não se metem nessas coisas... que eles são todos iguais e isso pega-se. sei que os primeiros votaram em massa, não pergunto o que fizeram os segundos. eu fui votar e ontem percebi que não serviu de nada. discuto com quem reflecte todos os dias sobre o estado da nação - não porque lhe pagam, mas apenas porque acredita que merecemos algo melhor - e fico dividida entre a vontade de acreditar que isto se muda e a desilusão de não ver alternativa. sei que anda gente na rua, que os desiludidos são a maioria, mas custa-me misturar malabarismo com economia. também não percebi os homens da luta e o novo programa da rtp passa-me ao lado. talvez seja isso, talvez seja uma questão de humor. não fui talhada para esta contestação.
no final do dia penso no meu avô, socialista convicto. veio de trás-os-montes para lisboa muito antes da democracia estar no horizonte. penso nos meus pais e nas discussões políticas à hora do jantar. penso no meu irmão, cheio de princípios, mas a quem a ideologia não diz nada. é verdade, não me identifico com quem faz da contestação uma festa, mas acredito que uma sociedade em que a saúde, a educação e a justiça são igualmente acessíveis por todos é melhor do que as outras. talvez seja por isso que me custa menos estar do lado dos que desistiram do sistema do que daqueles que acham que isto agora é que vai ser.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
terça-feira, 24 de maio de 2011
Mural
O Mural é um blogue escrito por representantes da nova geração de adultos portugueses, que nos últimos meses se disse “à rasca”. São jovens académicos e profissionais, que vão abordar temas como a ciência, a cultura, a educação, o acesso ao Direito, as desigualdades sociais ou o combate à corrupção.
Este blogue, realizado no âmbito da cobertura que o PÚBLICO irá fazer da campanha eleitoral, é um espaço de reflexão dessa nova geração. O Mural publicará diariamente textos de opinião, até às eleições legislativas de 5 de Junho. Apenas ficará em branco no dia anterior ao do escrutínio, 4 de Junho, destinado à reflexão dos eleitores.
Os comentadores do Mural foram convidados pelo PÚBLICO a descentrar o debate da economia e das finanças. O que se pretende nesta página é explorar outros temas, que também afectam o país e o seu futuro, cruzando leituras da campanha – do que é ou deveria ser – com as áreas profissionais ou de estudo dos comentadores.
Quanto à minha contribuição, foi esta: o acesso ao Direito como pressuposto essencial ao exercício da cidadania
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