domingo, 29 de janeiro de 2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

Leituras passadas

"Eu tinha cinquenta anos e há quatro que não ia para a cama com uma mulher. Não tinha amigas. Quando passava por elas, na rua ou onde quer que as via, olhava, mas olhava sem desejo e com desinteresse. Masturbava-me regularmente, e a ideia de ter uma relação com uma mulher - mesmo em termos não sexuais - estava muito longe da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima, com seis anos de idade. Ela vivia com a mãe e eu pagava uma pensão. Casara-me aos 35, há alguns anos atrás. Este casamento durou dois anos e meio. A minha mulher divorciou-se de mim. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo crónico. Morreu aos 48, quando eu tinha 38. A minha mulher era 12 anos mais nova do que eu. Acredito que também ela esteja morta, embora não tenha a certeza. Durante seis anos, depois do divórcio, ela escrevia-me pelo Natal uma longa carta. Nunca respondi..."

Charles Bukowski, Mulheres

(Gostei mesmo deste primeiro parágrafo, depois aborreci-me, a longa e rotineira lista de mulheres parecia nunca mais acabar. cheguei ao final do livro a pensar que já não tenho idade para este peditório.)

sábado, 14 de janeiro de 2012

Leituras passadas

O Reino


"O que mais assustava Klaus era esse modo infalível de cópia. O facto de uma arma conseguir, nas mesmas condições, repetir exactamente o mesmo som com duas balas diferentes. Era essa a possibilidade que o assustava e o fazia temer essa terceira linguagem, mais do que as outras. Porque a possibilidade de cópia exacta, de repetição perfeita, era uma suspensão evidente do tempo habitual, do tempo que os humanos e a natureza conhecem: o tempo que avança, que muda, que altera as coisas."

Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump


" Era evidente naquele momento que a memória estava intimamente ligada ao espaço. A memória era uma qualidade do espaço, não dos homens. Qualidade simples como são o comprimento, a largura e a altura. A memória é a quarta qualidade imediata do espaço, disse Walser para si próprio, como se estivesse a descobrir algo relevante."

Gonçalo M. Tavares, A máquina de Joseph Walser


"Levantou-se. Mylia era uma mulher magra, mas forte. Não utilizava os dedos para ninharias. (Muitas vezes repetia a frase: não utilizar os dedos para ninharias.)
Concentrava-se; sabia que tinha poucos anos de vida; a doença veio: ficamos juntas uns anos, depois ela permanece e eu parto. Pois bem, havia de concentrar a energia que existe nos dias ou que existe num corpo e se dirige aos dias, concentrá-la - à energia - como a um rolo de carne, estar pronta para agir. Dispensando ninharias. Os dedos devem tocar só no que é espesso, no que é fundamental; o urgente tem de coincidir com o essencial, com o que altera de alto a baixo. "

Gonçalo M. Tavares, Jerusalém


"Suspender era o verbo por excelência do poder, do rei que pode colocar o polegar para baixo determinando a execução de um prisioneiro, mas que no último momento decide suspender o gesto. Não se arrepende, vai apenas pensar. É o ainda não, ou, o mais terrível: por enquanto não.
Este por enquanto não, e disso Lenz tinha plena consciência, tinha claramente um alcance maior do que a mera execução definitiva; poderia manter uma cidade inteira debaixo do seu domínio."

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica

(re)começo

2012 começa devagar, muito devagar... a "eu" das 9h às 18h00 acaba com a outra "eu", coisinha de nada. O ano começou desencontrado e eu guardo, como se perder isso significasse perder-me a mim, todas as coisas que queria dizer e dar às pessoas que não fui capaz de ver. Tenho muitas coisas para dizer à j. e a v., mas parece que as palavras ganham cola e, frustrada, remeto-me ao silêncio. Para o f. e a n. guardei outra coisa sem ser palavras, guardei imagem, porque entre tantas coisas que descobri no final de 2011, foram as palavras de f. primeiro escritas e depois faladas e a ternura de n. das coisas que mais me emocionaram. Porque o final de 2011 me parece agora tão mais fácil do que este ano que já começou, atraso a entrada, pego na pilha de livros das leituras passadas e ao procurar as frases que me fizeram parar em 2011, deixo para amanhã o ano novo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

rotinas




palavras encontradas por acaso tornam-se realidades paralelas.
ao que penso.
ao que sonho.
ao que escrevo.

inspiração: rinko kawauchi





mais aqui

inspiração





"... sou do tamanho do que vejo e não  do tamanho da minha altura "

  Madeira e espelho     246x20x40 cm 
  Instalação, 2010

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

work in progress II





O BOTE DA RAZÃO (a partir de “Matteo Perdeu o Emprego” de Gonçalo M. Tavares)
Apresentação da Oficina de Criação I pelos alunos do Curso de Artes Performativas
Encenação de Claudio Hochman


SINOPSE
«O Bote da Razão  não é uma peça de teatro nem é uma exposição de quadros, mas tem um pouco de cada coisa.
Oito intérpretes pelo mágico espaço da Antiga Fábrica de Azulejos a fazer cenas inspiradas no livro Matteo Perdeu o Emprego de Gonçalo M. Tavares.
O livro tem uma ordem, neste Bote da Razão se perde a narrativa e se resgatam situações, textos, músicas, imagens que se vão encadeando num labirinto onde o espectador escolhe seu próprio caminho.
O Bote da Razão é o resultado da Oficina Criativa do Curso a Artes Performativas do SOU.»

Mais informações aqui.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011


desmembro a rotina até a tornar ruído de fundo. redescubro que se pode dividir infinitamente.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

inspiração: pilgrimage by annie leibovitz


Virginia Woolf's bedroom

mais sobre todo o projecto aqui.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

leituras

A mulher da pensão viu a mulher descalça ler a serradura. Sentou-se em frente dela. Apoiaram os braços no tampo de pedra da mesa. Cheirava a café entornado. Cheirava a papel queimado. Olharam-se. Decifraram-se. Soletravam-se.

Jorge Fallorca, A mulher descalça


repetição




A ideia de repetição ficou-me. fui para casa e repesquei esta imagem do arquivo. há aqui a repetição do gesto - duas vezes fotografei no mesmo negativo. a repetição do lugar  -  10 vezes conto o botequim nos meus arquivos. também eu tento dizer qualquer coisa com a repetição. também eu me repito sempre.
A angústia surge perante a outra repetição - perante o medo da fórmula encontrada, fórmula repetida. surge sem pudor, perante tudo o que já foi feito e pensado pelos outros. perante tudo o que já foi feito e pensado por nós.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011