terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Listas
gosto de listas inesperadas e gostei especialmente desta: dez filmes da última década que qualquer fotógrafo deve ver, elaborada pelo fotógrafo Henry Jacobson (vista no arte photographica)
p.s. a minha seria diferente, mas incluiria, sem dúvida A Single Man.
domingo, 23 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
no meu caminho II

O caminho que faço para casa demora-se por duas ruas ingratas. São o espelho do abandono a que um certo centro da cidade foi votado. Fazem parte daquela zona da almirante reis que já não se recomenda, que não se desce, que se evita sem pudor. Gosto delas, não por uma qualquer decadência estética, mas pela sua resistência absolutamente inesperada. Pela loja de velharias onde comprei um catálogo de pintura russa por três euros. Pelo alfarrabista com promoções de clássicos. Pela loja de ferragens com vassouras penduradas no tecto. Pela padaria onde me ofereceram torta de laranja e onde compro o pão. Pela loja de roupa interior que adorava fotografar de uma ponta à outra.
Mas também pela resistência de determinadas pessoas, que se recusam a ser expulsas de uma zona como esta - ingrata e mal-amada.
sábado, 8 de janeiro de 2011
leituras
Gauna assistia ao ensaio com os olhos fixos, boca entreaberta e sentimentos contraditórios. A desilusão do primeiro momento ainda ressoava nele, como um eco fraco e prolongado. Fora como uma humilhação perante si mesmo. «Como é que eu não desconfiei», pensou, «quando me disseram que o teatro ficava na Rua Freye?» Mas agora perplexo e orgulhoso, via a conhecida Clara transfigurar-se na desconhecida Élida. O seu abandono ao prazer - a uma espécie de prazer vaidoso e marital - teria sido completo se as caras masculinas, inexpressivas e atentas que assistiam ao espectáculo, não lhe tivessem sugerido a possibilidade de uma inevitável trama de circunstâncias que podiam roubar-lhe Clara ou deixar-lha aparentemente intacta, mas carregada de mentiras e traições.
[...]
- Nunca ninguém me falou assim - declarou a rapariga.
Diante dos seus olhos radiantes, pardos e puros, envergonhou-se, viu-se a descoberto; quis reconhecer que toda aquela teoria da liberdade e da franqueza era uma improvisação, uma apressada memória de conversas com Larsen e que agora a expunha para esconder as suas descobertas, a sua necessidade de saber o que ela tinha feito na noite em que não quis acompanhá-la, para disfarçar um pouco o inesperado e urgente sentimento que o dominava: os ciúmes. Começava a balbuciar, mas a rapariga exclamou:
- És maravilhoso.
Julgou que troçava dele. Quando olhou para ela, percebeu que falava seriamente, quase com fervor. Sentiu-se ainda mais envergonhado. Pensou que nem sequer estava certo de acreditar no que lhe tinha dito, nem de aspirar a entender-se perfeitamente com ela, nem de gostar assim tanto dela.
Adolfo Bioy Casares, O sonho dos heróis
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
a explorar
A dica, dada pelo pai, sublinhava em particular o trabalho desenvolvido por Sam Taylor Wood, sendo esta foto uma das minhas preferidas:

Quanto a mim, o portfolio do fotógrafo Alexander Gronsky encheu-me as medidas:

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
vícios
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
último
encontrado por acaso, descreve perfeitamente os meus desvarios cibernéticos dos últimos dias
Browse the images, when you see something that you like, click on it, to see more like it.
It's actually that simple. Enjoy the inspiration!
p.s. sim, isolada do mundo e com demasiado tempo nas mãos.
p.s. a tentar furiosamente não ligar aos anúncios inacreditáveis do crédito ao consumo - antónio vai finalmente para as caraíbas com a mulher e os três filhos??!; , à pérola do comentador televisivo de fim-de-semana quando questionado sobre a possibilidade de fenómenos de instabilidade social no próximo ano - o povo português é sereno e inteligente.
a tentar furiosamente olhar para o lado positivo disto tudo, mas está difícil.
domingo, 26 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
leituras
Ela sabia que eu não iria comer sentada à mesa e depois levar-me-ia o jantar à cozinha, mas pensei que não queria que Charles se lembrasse disso e dar-lhe assim outro motivo de que falar. Sorri e saí para o vestíbulo, com a voz ainda a falar atrás de mim. Há muito que não se ouviam tantas palavras na nossa casa, e ia demorar algum tempo a limpá-las todas.
Shirley Jackson, Sempre vivemos no castelo
domingo, 12 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
leituras
Foi nessa altura que desisti da intenção de procurar uma explicação a todo o custo. Com o devido respeito, nem sempre se pode contar com o bom senso. Às vezes é mais aconselhável e proveitoso aceitar coisas estranhas. Podemos até preservar a cabeça nos ombros, que não é coisa pouca. E eu não só sobrevivi às escadas escuras como também em breve ganhei paz de espírito. Assim que deixei de me sobrecarregar com a curiosidade desnecessária, comecei a dormir melhor, o meu apetite voltou, já não estava constantemente desanimado, apático e anémico. É um verdadeiro milagre como uma decisão simples pode, num abrir e fechar olhos, fazer renascer uma pessoa.
Zoran Zivkovic, A Biblioteca (A Biblioteca Particular)
(É um livro minúsculo, cheio - mais do que de livros - de espaços fantásticos onde os guardar: as bibliotecas imaginárias. Mesmo assim, foi aqui que me prendeu, numa passagem sobre a possibilidade de o número de degraus ser diferente a subir e a descer - pareceu-me perfeita.)
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
jun igarashi architects: house of trough
há fotografias que me dão vontade de viver em certas casas.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
fotogenia

Nicole Kidman, Charleston, East Sussex, England, 1997
(Presence and Charisma)
[...]
What I'm talking about is not always immediately visible to the naked eye. You sometimes become aware of it during the shoot when you look at a Polaroid or at the screen of a monitor. And it's not just that the camera loves these people's faces. There are quirky things about them that are also beautiful to photograph. The way Nicole Kidman looks from behind when she walks away, for instance. The way she stands. Not many people are good at standing.
Glamour is part of the quality I mean, but it manifest itself in situations that aren´t particularly glamorous. In 1997, when Nicole Kidman was in England, making the Kubrick film Eyes Wide Shut, I brought her to Charleston, the former home of Vanessa Bell and Duncan Grant, in Sussex. Kubruck had asked her to stay out of the sun for a year or something before they started filming, and her skin has very white. Almost translucent. She sat on the edge of a bed wearing nothing but a black turtle neck sweater, looking directly at the camera. Everything that you would think makes her a movie star was stripped away, and she still held the picture.
Annie Leibovitz, At Work
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
ready-made home art
sábado, 13 de novembro de 2010
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Lewis Hine

"There were two things I wanted to do. I wanted to show the things that had to be corrected. I wanted to show the things that had to be appreciated.
In these terms, Lewis Wickers Hine numbers among the leading figures of socially oriented documentary photography.
To attempt to conclude that Hine was not interested in technical photographic questions would be false, however. What fascinated him was photography as a contemporary visual means of communication what he ignored was the concept of the 'fine art print' as defended by the photographic community oriented on Stieglitz and his circle. And precisely here may lie the explanation for the low estimation that he received up to the present time. For example, Edward Steichen, chief curator for photography at the Museum of Modern Art in New York, showed no interest in 1947 in Hine's estate after his death in 1940. And even the evaluation of Susan Sontag, who held Walker Evans to be the most important photographic artist to have concerned himself with America, reveals something of the skepticism that art criticism has shown toward Hine's oeuvre primarily directed to social criticism. And yet Hine was in fact interested in formal and aesthetic questions and had, moreover, developed a visual vocabulary that could hold its own at the height of art-photography debates, being wholly based on the qualities intrinsic to the medium. In particular his early workers' portraits, according to Miles Orvell "endow their commonplace subjects with a dignity not in terms of an art-historical tradition, but in terms of a new vocabulary of representation that erased the existing ethnographic and documentary traditions of portraiture and established a new procedure for representing working-class character." But there were very few who recognized this truth during Hine's lifetime, not even a Roy Striker, who roundly rejected Hine's application for work with the FST project. Thus Lewis Hine died in 1940, impoverished and forgotten. He who had devoted himself lifelong to the social welfare of others had finally become a welfare case himself. "
Hans-Michael Koetzle, Photo Icons - the story behind the pictures (Taschen)
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Robert Frank: provas de contacto

"Guggenheim 340/Americans 18 and 19 - New Orleans, 11/1/1955" Frank shot this roll of film in New Orleans in November, 1955. It contains two images, numbered 13 and 16 in the row outlined in red, that made Frank's final cut for The Americans. Photo number 16, "Trolley--New Orleans," became famous as The Americans' cover image. (retirado daqui)
ando em treinos. a perceber como se chega àquela que deve ser impressa.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
leituras
A carta, já o disse, era impossível de ler, embora estivesse escrita em espanhol, ou pelo menos foi essa a conclusão a que chegámos Daniel e eu. Mas também poderia estar escrita em aramaico. Sobre isto, sobre o aramaico, lembro-me de uma coisa curiosa. Cláudia, que depois de olhar para a carta não mostrou a mínima curiosidade por saber o que dizia, nessa noite, enquanto Daniel e eu tentávamos decifrá-la, contou-nos um história que Ulisses lhe tinha contado havia muito tempo, quando ambos estavam na Cidade do México. Segundo Ulisses, dizia Cláudia, aquela parábola de Jesus Cristo tão famosa, a dos ricos, o camelo e o buraco da agulha, podia ser fruto de uma gralha. Em grego, disse Cláudia que Ulisses tinha dito (mas desde quando é que Ulisses sabia grego?) existia a palavra káundos, camelo, mas o n (eta) lia-se quase como i, e a palavra káuidos, cabo, maroma, corda grossa, onda a letra i (iota) se lê i. O que o levava a perguntar-se se, como Mateus e Lucas se basearam no texto de Marcos, a origem do possível erro ou gralha estaria nele ou num copista imediatamente posterior a ele. A única coisa que se podia objectar, repetia Cláudia que Ulisses tinha dito, era que Lucas, bom conhecedor do grego, teria corrigido o erro. Ora bem, Lucas sabia grego, mas não conhecia o mundo judeu, e ele pode ter suposto que o «camelo» que entra ou não entra no buraco da agulha era um provérbio de origem hebraica ou aramaica. O curioso, segundo Ulisses, é que havia outra origem possível do erro: segundo o Herr Pinchas Lapide (mas que nomezinho, disse Cláudia), da Universidade de Frankfurt, especialista em hebreu e aramaico, no aramaico da Galileia havia provérbios que usavam o substantivo gamta, maroma de barco, mas, se uma das suas letras consoantes se escreve defeituosamente, como acontece amiúde em manuscritos hebreus e aramaicos, é muito fácil ler gamal, camelo, sobretudo tendo em conta que na escrita do aramaico e do hebreu antigos não se usam vogais e elas têm de ser «intuídas». O que nos levava, dizia Cláudia que tinha dito Ulisses, a uma parábola menos poética e mais realista. É mais fácil que uma maroma de barco, ou que uma corda grossa, entre pelo buraco de uma agulha do que um rico entre no reino dos céus. E qual era a parábola que ele preferia?, perguntou Daniel. Ambos sabíamos a resposta, mas esperámos que Cláudia a dissesse. A do erro, evidentemente.
Roberto Bolaño, Os Detectives Selvagens
p.s. mistérios sem resolução foram escritos para serem lidos avidamente.
Concurso L. Fritz Gruber
"...die Photographie dient als ein visuelles Verständigungsmittel immerhin allen Kulturvölkern, und sie ist über akustische Idiome hinaus zur Sprache der Kulturvölker geworden." - L. Fritz Gruber
"Fruchtbare Augenblicke/ Furchtbare Augenblicke"
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
coisa de nada
estar permanentemente num limbo não é bom, nem para os nervos, nem para aqueles que me têm de aturar diariamente. sexta alguém berrou, disse basta e rumámos ao norte - o alerta amarelo impôs algum respeito e a viagem não ficou a mais de hora e meia da capital. largámos as malas na casa da vila onde se proclamou a república, podia ser melhor?
apenas uma nota, verdadeira razão de ser deste post: a chuva fez com que parte da estadia fosse passada em cafés a pôr a leitura em dia. parámos num, meio cinzento com ar de servir bagaços logo pela manhã aos seus mais fiéis clientes, tendo como inigualável ponto positivo, para quem me acompanha, licença para se fumar. passámos a manhã apenas com um chá e um café à nossa frente, sem qualquer censura por parte da gerência e até aqui nada de especial, até que a rapariga que nos atendia nos perguntou se queríamos que baixasse a música (radio local a passar desde os delfins à rihanna). quando agradecemos e respondemos que não era necessário, fomos brindados com um sorriso do tamanho do mundo e com uma confissão meio envergonhada: eu quando leio também sou assim, desligo de tudo.
é meio parvo, eu sei, mas porra, ser recebida assim encanta-me.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
leituras
Passado algum tempo, Haze levantou-se e começou a caminhar de volta à cidade. Demorou cerca de três horas a alcançá-la. Quando lá chegou, parou numa loja de ferragens e comprou um balde de lata e um saco de cal, e depois seguiu para a casa onde vivia carregando estes produtos. Quando chegou, Haze deteve-se no passeio, abriu o saco de cal e encheu metade do balde. Depois, foi até uma torneira que havia perto dos degraus da entrada, encheu o resto do balde com água e subiu os degraus. A senhoria estava sentada no alpendre, embalando o gato.
«Qu'é que vai fazer co' isso, senhor Motes?», perguntou ela.
«Vou cegar-me», disse ele, entrando em casa.
A senhoria deixou-se ficar sentada durante mais algum tempo.
Não era mulher que sentisse maior violência nesta palavra ou naquela. Ela dava a cada palavra a mesma neutralidade, para ela eram todas iguais. Mas ainda assim, em vez de se cegar, se ela se sentisse assim tão mal matava-se, e não percebia porque haveria alguém de fazer diferente. Se fosse ela, teria simplesmente metido a cabeça num forno, ou talvez tomasse demasiados comprimidos para dormir e pronto. Talvez o senhor Motes estivesse apenas a ser desagradável, senão que razão é que uma pessoa pode ter para querer destruir assim a vista? Uma mulher como ela, que via tão bem, nunca suportaria ser cega. Se tivesse de ser cega então mais valia estar morta. Ocorreu-lhe então de repente que quando morresse ficaria também cega. E, assustada, fitou o mundo à sua frente intensamente, encarando este facto pela primeira vez. E então recordou a expressão «morte eterna» que os pregadores utilizam, mas imediatamente a apagou da sua cabeça, sem nunca mudar a expressão do rosto mais do que o gato.
Flannery O'Connor, Sangue Sábio
terça-feira, 26 de outubro de 2010
desabafo
É difícil continuar a coleccionar as pequenas coisas que me fazem parar e reflectir (acho que este blog nunca foi mais do que isso). gosto de livros, de filmes e de fotografias e nunca quis escrever sobre outra coisa, mas com o país permanentemente à beira do colapso, confesso que se torna cada vez mais complicado.
Nunca li tanto sobre finanças, sobre economia, sobre o que o governo propõe e sobre as alternativas possíveis. O primeiro impulso é sair daqui, fazer as malas, desistir. Depois penso em todas as pessoas que conheço com vontade de arregaçar as mangas e fazer qualquer coisa, que afastam o fatídico que tão rapidamente nos caracteriza. Há ideias, projectos, coisas bem feitas.
Por mais que o escrevam ou que o digam, continuo a discordar a alto e bom som: um país não é uma empresa, não vai falir, fechar as portas e por a leilão os bens que restarem.
p.s. voltarei aos posts em breve - ainda acho que vale a pena ir partilhando as coisas de que gosto (confesso que o faço cada vez mais como técnica de guerrilha, contra as permanentes actualizações sobre o pequeno almoço ou o estado de espírito que me brinda o facebook), pelo menos enquanto houver dez leitores do outro lado andarei por aqui.
sábado, 9 de outubro de 2010
encantador
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
100 anos
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
nada de novo

o projecto do timur civan anda por todo o lado, mas esta fotografia em particular não me sai da cabeça, acho-a mesmo bonita, por isso, também eu digo: nada como uma lente das velhinhas.
sábado, 25 de setembro de 2010
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
domingo, 19 de setembro de 2010
leituras
A doença era mal de família. Jazia escondida na linha de sangue que os tocava, provinda de alguma nascente muito antiga, de algum profeta no deserto ou um estilita, até, sem qualquer decréscimo na sua intensidade, ter surgido no velho, nele próprio e também, presumia, no rapaz. Aqueles que tocava estavam condenados a lutar contra ela constantemente, ou a deixar-se por ela governar. O velho deixara-se governar. Ele, a troco de uma vida plena, protelava-a. O que o rapaz faria estava ainda por resolver.
Flannery O'Connor, O Céu é dos Violentos
leituras
Aqui estamos, os três, você a olhar-me de vez em quando para as pernas, tentando não baixar a guarda, não ser tomado de surpresa quando lhe pedirmos um pouco de morfina, por caridade. Você viu-me nua, doutor das dúzias; teve de tocar-me para evitar que eu seja agora uma mãe para si. O mal não está em a vida nos prometer coisas que nunca nos dará; o mal é que as dá durante muito tempo e depois deixa de as dar.
Juan Carlos Onetti, A Vida Breve
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
em contagem decrescente para o motelx
Porque o terror também é isto: ya no puede caminar esteve na edição de 2008.
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Daniel Blaufuks, O Arquivo








