domingo, 19 de setembro de 2010

leituras

A doença era mal de família. Jazia escondida na linha de sangue que os tocava, provinda de alguma nascente muito antiga, de algum profeta no deserto ou um estilita, até, sem qualquer decréscimo na sua intensidade, ter surgido no velho, nele próprio e também, presumia, no rapaz. Aqueles que tocava estavam condenados a lutar contra ela constantemente, ou a deixar-se por ela governar. O velho deixara-se governar. Ele, a troco de uma vida plena, protelava-a. O que o rapaz faria estava ainda por resolver.

Flannery O'Connor, O Céu é dos Violentos

leituras

Aqui estamos, os três, você a olhar-me de vez em quando para as pernas, tentando não baixar a guarda, não ser tomado de surpresa quando lhe pedirmos um pouco de morfina, por caridade. Você viu-me nua, doutor das dúzias; teve de tocar-me para evitar que eu seja agora uma mãe para si. O mal não está em a vida nos prometer coisas que nunca nos dará; o mal é que as dá durante muito tempo e depois deixa de as dar.

Juan Carlos Onetti, A Vida Breve

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

em contagem decrescente para o motelx



Porque o terror também é isto: ya no puede caminar esteve na edição de 2008.

novo vício: tasteologie

A mais recente plataforma da notcot chama-se tasteologie.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

também Shaw

era fotógrafo, o espólio pode ser consultado aqui (visto no ípsilon)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

a fazer lembrar a twilight zone

Quem estava comigo desesperou. Só para quem gosta de ficção científica à antiga.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

das leituras

Tentei explicar isto no outro dia e talvez isso explique muita coisa. Ao contrário da maioria, os meus anos oitenta não foram famosos, desde a indumentária foleira, às cassetes dos mini stars, a única coisa que se safava era eu ser uma miúda feliz. Época áurea das fotografias de família, apareço sempre a sorrir, contente com a vida. Quanto à literatura: tinha revistas aos quadradinhos do tio patinhas e os livros da Anita; nesses tempos o meu verdadeiro orgulho era a colecção invejável de barbies, impecáveis e cheias acessórios.


Na altura em que devia ter começado a ler calhou não haver nenhum professor de português na zona e o meu pai, que acredito ter feito das tripas coração – mas que nunca teve muita paciência nem jeito para aquilo -- lá fez as vezes do professor primário que me faltava. Sentar-me na mesa da sala para a lição diária passou rapidamente a ser uma tortura de laivos kafkianos, eu não percebia a lógica daquilo, não sabia sequer o que era suposto estar a aprender e só a muito custo um “t” e um “e” se transformavam em ... Resultado: só quando tive uma professora a sério é que a coisa começou a funcionar.


Quando estava na segunda classe, quis o destino que os meus pais me tivessem de largar às 8h da manhã na escola, continuo a achar que era à minha mãe que custava mais essa minha hora de espera até as aulas começarem e com isso ganhei pontos e por pontos entenda-se cem escudos para comer um bolo no café do outro lado da rua. A senhora era simpática, eu tinha 7/8 anos e um sorriso capaz de desarmar quem quer que fosse. Os cem escudos rapidamente começaram a ser desviados dos bolos para os livros. O plano era o seguinte: Aos fins-de-semana, na secção dos livros do supermercado, escolhia um volume da colecção “uma aventura” e dava os quinhentos escudos ao meu pai, a minha mãe começou a desconfiar, mas não percebia de onde é que vinha o dinheiro e, por uns tempos, o plano resultou às mil maravilhas. Este foi, sem dúvida, o meu momento mais apaixonado pela literatura. Nada de leituras vanguardistas, nada de livros paradigmáticos da literatura infanto-juvenil (daqueles que aparecem em listas altamente reputadas tipo o moby dick). Era uma miúda feliz e a minha grande dúvida existencial da época - que eu me lembre - tinha aparecido uns anos antes e resumia-se ao seguinte: duvidava da existência do peter pan - sim o filme da disney teve algum impacto e, na dúvida, durante uns meses deixei a janela do quarto destrancada.


Não sei se esta introdução fará sentido para alguém, mas antes de escrever o que se segue quis deixar claro qual foi o momento em que percebi que gostava de ler.


Nunca gostei da expressão “leio compulsivamente”.

Não gosto da expressão, porque é exagerada. É aquele exagero bacoco – não sei se me faço entender, é como quando nos perguntam pelos nossos defeitos, a resposta “sou teimoso” é a escolha invariável– o ler compulsivamente tem disso, aquela auto-censura cínica, nem que eu quisesse conseguiria evitar ler tanto - segue-se sempre um sorriso contido e sobranceiro - aquele defeito é sobretudo uma virtude e ler compulsivamente é melhor do que ler.

São normalmente estas as pessoas que seguem diligentemente as inúmeras listas dos livros a ler - os melhores do ano, os melhores do século, os recomendados pelo blog/revista da moda, os melhores sempre desconsiderados pelos cânones clássicos, mas que são verdadeiramente os melhores - e nunca se vêem com um livro que não tenha sido previamente aprovado por alguém que percebe do assunto. E tendo sido aprovado, não se discute. Exalta-se, enaltece-se, fica-se sem palavras... mas nunca se discute.


Eu não leio compulsivamente, desde que aprendi a ler e comecei a trocar bolos por livros, só leio, sem desmesura.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010

recomeçar

setembro à porta. são resquícios de outros tempos, acho sempre que o ano começa agora.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

versão moderada

depois das dicas sobre como despachar dolorosamente quem nos mói o juízo a m. - que diz que a sorte do tipo é eu ser boa pessoa, ah! - manda-me esta ilustração: a alternativa moderada, para pessoas boazinhas ;)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

hoje

Retirado daqui (se alguém a quiser oferecer para eu emoldurar e pôr no gabinete, agradeço. porque há gente que ainda não percebeu que tudo o que eu quero é que me deixem sossegada - não, não gosto de pessoas e não preciso de mais amigos).

sábado, 14 de agosto de 2010

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

leituras

- Tinha acontecido o que tinha de acontecer - diz Santiago. - Eu julgava que já tinha acontecido e só acontecera essa manhã.
Tinham estado juntos toda a manhã, um bichinho como uma cobra, não tinham ido às aulas porque Jacobo lhe tinha dito quero falar contigo a sós, uma cobra afiada como uma faca, tinham caminhado pelo Paseo de La República, uma faca como dez facas, tinham-se sentado num banco da fonte do Parque de la Exposición. Pelas faixas paralelas da Avenida Arequipa passavam automóveis e uma faca entrava muito levemente e outra saía e voltava a entrar devagarinho, e eles avançavam pela alameda que estava escura e vazia, e outro como num pão de côdea finita e muito miolo no seu coração, e de súbito a vozinha calou-se.

[...]

Era outro que falava, pensa, não eras tu. A voz um pouco mais firme agora, mais natural, Zavalita: não era ele, não podia ser ele. Compreendia, explicava, aconselhava duma altura neutral e pensava não sou. Ele era uma coisa pequenina e maltratada, uma coisa que se encolhia debaixo dessa voz, uma coisa que se escapulia e corria e fugia. Não era orgulho, nem despeito, nem humilhação, pensa, nem sequer ciúmes. Pensa: era timidez. Ela escutava-o imóvel, observava-o com uma expressão que ele não sabia nem queria decifrar, e de repente tinha-se levantado e tinham percorrido calados meio quarteirão, enquanto, tenazes, silenciosas, as facas continuavam a carnificina.

Mario Vargas Llosa, Conversa n'A Catedral